Auto-mutilação

Eu respiro tentando encher os pulmões de vida

Mas ainda é difícil deixar qualquer luz entrar

Ainda sinto por dentro toda a dor dessa ferida

Mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar

Eu queria manter cada corte em carne viva

A minha dor, em eterna exposição

E sair nos jornais e na televisão

Só pra te enlouquecer

Até você me pedir perdão

 

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É a primeira vez que falo de auto-mutilação aqui. Eu sei que é desagradável, mas faz (fazia?) parte da minha vida. E ignorar as coisas feias não é um bom jeito de lidar com elas.

Eu já ouvi muita merda a respeito dos meus cortes, principalmente que eu os fazia para chamar atenção. Não era isso. Havia muitos motivos para me cortar, mas nenhum deles era chamar atenção.

Depressão é uma doença que não deixa marcas visíveis na sua aparência física, mas que dilacera a sua alma. Cortando a minha pele, eu fazia o exterior combinar com o caos do meu interior: finalmente algo na minha aparência mostraria o meu sofrimento, indicaria que eu precisava de ajuda. Mas a ajuda não vinha. As pessoas desviavam os olhos e seguiam em frente.

Eu era uma estudante de medicina, e, por quase um ano, eu torci para que um dos meus professores médicos visse meus cortes e cuidasse de mim. Eu estava sozinha e sem ajuda adequada. Eu estava tão perdida.

Por vezes, eu me machucava quando sentia muita raiva de mim. Eu estava tão decepcionada comigo mesma, tão aquém das minhas expectativas que precisava me punir.

Outro motivo para me cortar era para aplacar uma dor maior, geralmente amorosa. Quando o sofrimento emocional está grande demais, é preciso fazer alguma coisa, ou eu sinto que vou explodir, esfacelar em milhões de pedacinhos. Nessas horas, eu corto minha pele, a dor física suplanta a da alma e eu me sinto inteira novamente.

Diante de um possível abandono, eu me transformo. A dor é TAMANHA, que eu faço o que for necessário para manter a pessoa por perto, inclusive chantagem emocional. Eu me humilho, eu imploro, eu mostro os cortes nos meu punhos… E não por isso estes cortes eram menos verdadeiros: a dor que me levou a fazê-los era real.

Inclusive, vale salientar: eu não consigo me cortar se eu estiver calma. Eu pressiono a lâmina contra a minha pele e dói demais – sou forçada a parar. Só consigo fazer os cortes se eu realmente estiver em crise, situação em que não sinto a dor da minha pele sendo fatiada. Por isso que não há o menor sentindo em dizer que os meus cortes foram feitos de maneira calculista, para chamar atenção: é dificílimo cortar-se na ausência de uma dor emocional muito grande.

Cortes são chamativos? Sim. São dramáticos? Sim. Pessoas com transtorno de personalidade borderline são mesmo ligeiramente dramáticas, mas nem por isso a auto-mutilação deve ser desvalorizada! Cuidado! A dor psíquica que leva alguém a se machucar é muito grande.

E, o pior, é que cortar a própria pele funciona. Por um momento, vivenciamos um branco emocional. O sofrimento, que era tão grande, é aliviado por milésimos de segundo. E essa sensação de alívio é viciante e dura pouco. Por isso vem o próximo corte. E mais outro. E outro. E logo você não consegue nem contar quantas cicatrizes tem no braço.

Por isso, o meu aviso é: não comece. Parar vai ser uma luta difícil e cheia de sofrimento.

Cortes não são a cura. São apenas um paliativo perigoso, assim como o álcool e as drogas.

 

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Por favor, se vocês gostam de ler o que eu escrevo, deixem comentários nos perfis dessas editoras pedindo que o meu blog vire livro!

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2 thoughts on “Auto-mutilação

  1. Eu amo tanto esse blog. Desde que descobri, toda semana eu tiro pelo menos um dia pra ler o que foi publicado durante a semana. Me identifico com muitas coisas aqui, inclusive com esse post. Sou bipolar, me cortei algumas vezes, e vi de perto como as pessoas estão sempre prontas a julgar o que você fez, mas não estão sequer dispostas a ouvir o que você sente. E quando há alguém que queira escutar, não dá como explicar com exatidão o caos dentro da sua cabeça. É importante falar sobre esse assunto, e alertar as pessoas do quanto é difícil parar essa prática. Já disse uma vez que eu adoraria ler um livro com esse conteúdo, e agora digo: continue escrevendo, mesmo que as coisas não estejam dando certo agora, e que tudo pareça confuso, continue. Tenho certeza que as coisas vão melhorar logo, e torço pra que você tenha coisas muito felizes pra contar aqui.

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    • Aaaaaaaaah! Esse comentário alegrou o meu dia! É tão bom saber que alguém aprecia o que eu estou fazendo, mesmo que não seja muita coisa!! ❤️❤️❤️
      Sinto muito por saber que você já se cortou. Não é fácil, não é mesmo?
      Tão difícil quanto, é ver as feridas transformarem-se em cicatrizes e perceber que elas não irão sumir nunca.
      Eu tento encarar as minhas como marcas de guerra, das batalhas contra a minha própria mente que já travei.

      Nossa, o meu maior sonho é publicar um livro com o conteúdo desse blog. Principalmente porque é algo que eu mesma teria gostado de ler quando estava na fase mais aguda da minha doença.
      Sigo escrevendo e torcendo para algum editor me notar nesse mar infinito que é a internet…

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