Papel do doente

Em sociologia médica, existe algo chamado “papel do doente” ou “sick role”. Eu aprendi sobre esse conceito nas minhas aulas de sociologia do primeiro ano da faculdade de medicina, e quero explicar mais ou menos o que é isso para vocês, para depois poder falar sobre algo que ando sentindo nas últimas semanas.

Basicamente, o papel do doente consiste no conjunto de direitos e obrigações da pessoa enferma. Isso acontece porque a pessoa doente não é um membro produtivo da comunidade, e há expectativas da sociedade de como ela irá agir, portando o comportamento dela precisa ser regulamentado por um médico.

É o médico quem valida a doença da pessoa. Alguém não pode simplesmente decidir por si só desempenhar o “sick role”. Uma vez validada, a pessoa tem os seguintes direitos e deveres:

Direitos

– A pessoa doente está isenta dos papéis sociais usuais

– A pessoa doente não é responsável pela sua condição

Obrigações

– A pessoa doente deve tentar melhorar

– A pessoa doente deve procurar ajuda competente e cooperar com os profissionais da saúde

 

Parece razoável, não?

Infelizmente – e agora eu começo a falar sobre as minhas experiências pessoais – eu não tive facilidade para desempenhar o “papel do doente”… não pude exercer os meus direitos por um longo tempo. Depressão é uma doença pouco compreendida pelas pessoas, e muitos me culpavam por não conseguir desempenhar minhas funções na sociedade. Muitos me julgavam preguiçosa. Alguns, inclusive, diziam que meu problema era falta de fé. Que absurdo, não?

No último ano, eu tenho estado afastada da maioria das minhas atividades, e cercada de pessoas que me compreendem e me ajudam, ou seja, estive exercendo meus direitos do “sick role”. Tudo perfeito.

Porém, recentemente, surgiu um problema: eu não sei se quero melhorar. Como assim? Calma que eu explico.

Veja bem, da depressão eu quero melhorar, claro. Ter um episódio depressivo é a situação mais desesperadora pela qual alguém pode passar. Eu não desejo isso para a pessoa que eu mais odeio.

Só que, eu não sei se quero deixar de preencher critério para Transtorno de Personalidade Borderline, o que eventualmente acontece, com a idade ou com o tratamento adequado. Eu tenho até vergonha de dizer isso, porque não é o que a sociedade espera de mim: se eu estou doente, devo querer melhorar, sempre!

Porém, às vezes, eu tenho carinho pelo meu transtorno. Ele me faz diferente, especial. É difícil se desvencilhar dessa sensação.

Além disso, eu tenho pavor de me tornar como as outras pessoas! Eu olho ao meu redor, e toda essa gente é tão sem graça, tão assustadoramente tediosa… Eu morreria se fosse assim! Eu preciso do meu batom vermelho sangue, de lágrimas, angústia, drama, adrenalina… sem isso eu não me sinto viva.

Por essas razões, nas últimas semanas, eu tenho ficado triste todas as vezes em que me percebo mais calma e sensata. Cadê a raiva, cadê a impulsividade? Eu acho as pessoas à minha volta tão aborrecidas, não quero ser como elas! Não quero deixar de ser eu mesma!

 

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Olympus mju I – Kodak ProImage ISO 100

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Compulsão

Uma coisa boa dos últimos tempos é que parei com uma prática terrível que estava ameaçando se tornar um hábito. Induzir o vômito após as refeições.

No final de 2015, eu estava tão mentalmente debilitada que encontrava a cada semana novas formas de me machucar. O vômito forçado foi uma delas.

Digo que foi uma forma de me prejudicar, e não de emagrecer, porque desde as minhas aulas de psiquiatria eu sabia que vomitar a comida não era um jeito eficiente de perder peso. Bulímicas geralmente têm o peso normal ou levemente aumentado.

Vou contar um pouco do meu ritual para vocês. Não é bonito.

Primeiro, eu comia desenfreadamente, como já vinha acontecendo há alguns meses. Eu estava tão deprimida que não conseguia sentir alegria com quase nada, e a comida era a única fonte de prazer que me restava.

Quando à isso se somou o estresse da possibilidade da minha Universidade recusar o meu atestado de depressão e eu repetir de ano, as compulsões alimentares ficaram mais frequentes. E, após cada episódio, eu sentia muita culpa e muito arrependimento. Tanto, que eu precisava me punir por esse exagero. Eu precisava me punir por ser uma idiota que ia repetir de ano.

Então, eu colocava meu rosto a centímetros do vaso sanitário fedido, enfiava meus dedos no fundo da garganta e sentia meu estômago expulsar todo o seu conteúdo, o meu esôfago se contrair e um jato bilioso e amargo chegar à minha boca. Era repulsivo ver os pedaços de comida parcialmente digeridos caindo, sentir a água respingando no meu rosto; enquanto eu estava ajoelhada no chão sujo de um banheiro que nem sempre era o da minha casa.

Aprender a fazer isso não foi fácil. Tocar o fundo da garganta com as pontas dos dedos, entre engasgos, requer disciplina. Você está maltratando deliberadamente o seu próprio corpo.

Hoje, eu tenho mais carinho por mim mesma. Quase não tenho acessos em que ataco desesperadamente a comida e, quando os tenho, não me martirizo. Eu sei que estou fazendo o meu melhor e que não mereço mais coisas ruins do que a parcela inevitável que a vida me reserva.

 

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Sábado, 12 de agosto

Hoje foi um dia extraordinariamente pacato. Acordei com o som do despertador. Fiquei deitada por mais um tempo. A minha gata estava dormindo ao meu lado, e lá ficou até eu me levantar.

Preparei-me para ir à primeira aula do francês, que começava às 14h. Estava com um pouco de preguiça, mas consegui ir mesmo assim.

A minha professora é uma mulher do sul da França que às vezes me assusta um pouco… Ela é a dona da Aliança Francesa. Porém, a aula foi surpreendentemente boa e tranquila.

Só há dois homens na sala, e nenhum deles é particularmente bonito ou inteligente, pelo que pude perceber neste breve contato. Que pena: eu estou precisando de alguém por quem eu pudesse me apaixonar.

Uma mulher com jeito de sonsa, em determinado momento, apontou para a minha bolsa e disse: “que bonitinha!” Isso me irritou. Minha bolsa não é “bonitinha”, ela é Prada.

 

Depois do francês, tomei  um sorvete e passeei pela Universidade, tirando fotos. Algumas das fotos foram tiradas com filme e precisam ser reveladas antes que eu possa mostrá-las a vocês, mas três foram tiradas com a minha Instax, que é uma câmera instantânea, então vocês já podem vê-las.

 

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Instax mini 8 – Aliança Francesa (foto à esquerda) e Universidade (duas fotos à direita)

 

A Instax Mini é uma câmera bem divertida, e tudo parece ficar mais fofo nela. Recomendo a compra. Os filmes são um pouco caros, cerca de 70 reais o pack com 20 poses, mas se você tiver uma folga no orçamento e estiver procurando um hobby, é uma ideia interessante.

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Minha Instax mini 8, cor framboesa

 

 

Ah! O meu professor de inglês, que eu acho bonitinho, me enviou material para estudo hoje. Ele lembrou de mim! Aiai… infelizmente essa relação será, para sempre, platônica.

 

Durante o período da noite, eu escrevi para as editoras cujo perfil se adequaria ao livro que eu quero publicar. Escrevi, inclusive, uma proposta de uma página, me apresentando e contando um pouco da minha história.

Estou desesperadamente tentando chamar a atenção de alguma editora… Morro de medo de que alguém publique um livro sobre Transtorno de Personalidade Borderline primeiro do que eu.

 

 

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Borderline na mídia

Recentemente, houve o caso do filho de uma desembargadora, que usou o Transtorno de  Personalidade Borderline (TPB) para se ver livre do presídio. A situação é polêmica e tem ares de malandragem.

Mas, como seria de se esperar, isso fez com que o público se interessasse por saber o que  é o tal do Transtorno de Personalidade Borderline, que é, de fato, bem pouco conhecido. Em resposta a esse interesse, surgiu, na mídia nacional, uma matéria explicando o TPB, e eu vim mostrá-la a  vocês.

 

Ela é do dia 8 de agosto e foi feita pela Veja.

Você sabe o que é transtorno borderline?

Primeiro, o nome no título da matéria está incorreto. Não é “transtorno borderline”, mas  sim, Transtorno de Personalidade Borderline.

A imagem usada pela revista, de um antebraço com diversos cortes, é forte e desagradável, mas eu gostei da decisão de usá-la. Amenizar a realidade e não falar de temas pesados como a auto-mutilação e o suicídio só aumenta o tabu ao redor deles. Assim, diminuiem as chances de alguém com esses problemas sequer conseguir falar abertamente sobre o que está passando.

Eles mencionam brevemente o tratamento da condição, indicando que ele é farmacológico E psicoterápico (uma modalidade não exclui a outra). Ainda, ressaltam que  o diagnóstico do transtorno só pode ser feito por um psiquiatra, o que é excelente nessa época em que o Dr Google é tão consultado.

Eu critico o uso da expressão “acessos injustificáveis de raiva” pela jornalista. O certo seria dizer que os paciente possuem “acessos desproporcionais de raiva”.

Sempre vai haver uma justificativa para a raiva do paciente borderline – nós não ficamos enraivecidos do nada. A diferença é que, perante a mesma situação, uma pessoa sem o transtorno ficaria apenas aborrecida, enquanto a borderline fica completamente irada.

Isso acontece porque as pessoas com TPB são mais sensíveis – elas sentem as ofensas de forma muito mais intensas. Logo, pela perspectiva do borderline, aquela pessoa que foi um pouco ríspida com ele, mereceu ser mandada para aquele lugar SIM! Afinal, os sentimentos da pessoa borderline foram profundamente feridos por aquela rispidez mínima… Sob a perspectiva do borderline, a raiva É justificada.

Ser tão sensível perante o mundo e tão intenso na expressão dos seus sentimentos é muito difícil. Isso causa uma incapacidade muito grande para controlar a raiva.

 

 

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Sonhos e martini

Hoje eu escrevi uma mensagem para o perfil do Facebook da Companhia das Letras, pedindo que olhem o meu blog e considerem publicá-lo como livro. Acho que, no momento, este é o meu maior sonho.

A Companhia das Letras é uma editora particularmente especial para mim. Eu a idolatro. Eu sou uma leitora voraz, e os livros das Companhia chamam a atenção pela qualidade do acabamento. E, como se não bastasse, os autores cujas obras integram o catálogo da editora são muito bem escolhidos: Milan Kundera, Jorge Amado, Oliver Sacks, Bill Bryson, Vinicius de Moraes, Andrew Solomon… Só para citar alguns. É muita gente de peso.

Porém, o meu amor pela Companhia das Letras começou de forma mais ingênua, quando eu tinha apenas 8 anos. Foi por meio da coleção Mortos de Fama, que narra a biografia de grandes personagens da história para o público juvenil. Em poucas semanas eu estava me sentindo amiga íntima de personagens como sir Isaac Newton, Leonardo da Vinci e Cleopatra.

Eu sei que as chances de sequer olharem o meu blog são pequenas. De gostarem dele, então, minúsculas! Mesmo assim, eu não vou desistir tão facilmente.

Nesse espírito, peço a vocês um grande favor: enviem uma mensagem para o perfil da Companhia das Letra no Facebook, pedindo que olhem o meu blog, e dizendo por quê vocês gostam de ler o que eu escrevo e por quê vocês acham eu deveria ser publicada. Significaria muito para mim.

Obrigada.

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Pentax K1000, Kodak Pro Image

 

Enquanto a hora de virar livro não chega, eu tomo martini sozinha em casa. Estou pensando em sair hoje, mas ainda não decidi… a última vez que fui para a balada foi tão desastrosa que estou com medo de que tudo aquilo se repita.

 

Beijos,

SS.

 

Pelo direito de ser promíscua sem julgamento moral!

Proibido pela censura, o decoro e a moral. Liberado e praticado pelo gosto geral (…) Indecente é você ter que ficar despido de cultura. Daí não tem jeito quando a coisa fica dura. Sem roupa, sem saúda, sem cada, tudo é tão imoral! A barriga pelada é que é a vergonha nacional.

– Pelado, Ultraje a Rigor

 

Essa música do Ultraje define perfeitamente a minha opinião sobre sexo. Eu poderia apenas colocar o vídeo dela aqui e não escrever nada. Porém, vou contextualizar a minha insatisfação com a maneira com que o sexo é tratado pela sociedade (hipócrita, diga-se de passagem).

Eu já vi, mais de uma vez, a palavra “promiscuidade” ser usada para se referir a pessoas com transtorno de personalidade borderline e, também, por uma médica para se referir a mim. Isso me chateou imensamente na época, e ainda chateia. Machucou.

Quando chamamos alguém de promíscua, isto é invariavelmente negativo. A palavra tem uma carga moral muito forte. E, eu, pelo menos, não quero viver de acordo com a moralidade e as doutrinas de outras pessoas.

Afinal, o que significa PROMISCUIDADE? Recorri à fonte de todo o saber, a Wikipédia.

 

Promiscuidade:

– Relacionamento sexual sem regras (alguém aqui gosta de sexo cheio de regras??);

– Sexo casual (não vejo nada de errado nisso);

– Característica da pessoa sem inibições sexuais, cujo prazer esta acima de preconceitos, tabus religiosos e valores morais (NADA MELHOR, NÃO É MESMO?)

 

Depois disso, eu só posso chegar à conclusão de que “promíscua” deveria ser um elogio. Agora, quer saber o que significa “pudor”?

– Vergonha, constrangimento, de base geralmente cultural, para falar a respeito ou praticar determinados atos ligados à área da sexualidade, das funções fisiológicas, dos sentimentos íntimos, da afetividade etc

Meu. Pudor é algo que impede as pessoas de falarem não só de sexo, mas até de funções FISIOLÓGICAS, como menstruação, por exemplo! Por culpa disso há tantos tabus relacionados ao nosso corpo e a coisas completamente normais.

Por culpa dessas coisas, pudor e vergonha, pais deixam de falar com os filhos sobre menstruação e sobre sexo, assim como foi comigo. O que aconteceu? Aprendi tudo errado, sozinha. Posso até exemplificar com outro trecho de uma música do Ultraje, esta chamada Sexo!

Hoje vai passar um filme na TV que eu já vi no cinema
Êpa!? Mutilaram o filme, cortaram uma cena
E só porque aparecia uma coisa que todo mundo conhece
E se não conhece ainda vai conhecer (…)

Bom, vá lá, vai ver que é pelas crianças
Mas quem essa besta pensa que é pra decidir?
Depois aprende por aí que nem eu aprendi
Tão distorcido que é uma sorte eu não ser pervertido

 

Sexo deveria ser tão normal quanto respirar, comer, fazer xixi… É apenas mais uma função fisiológica do nosso corpo, apenas mais um ato de intimidade entre duas (ou mais) pessoas, apenas mais um jeito de obter prazer.

Remédio: RITALINA®

Eu nunca falei sobre quais remédios tomo ou deixo de tomar aqui no blog, porque detesto ver pessoas procurando informação sobre isso online: elas deveriam se informar com médicos, ou seja, com alguém capaz de prover informações 100% corretas, integradas aos outros aspectos do tratamento, personalizadas para o paciente e baseadas em anos de estudos, experiência pessoal e estudos clínicos (pelo menos na teoria, porque eu sei bem como foi difícil encontrar uma médica boa e capaz, que é a responsável pelo meu tratamento hoje – gosto muito dela).

Apesar disso, hoje vou falar sobre um dos medicamentos que eu tomo. Não vou destrinchar a parte médica (afinal, como já disse, acho isso errado), vou apenas dizer qual é a minha relação com ele.

 

Já há algum tempo, eu tomo a famosa Ritalina®, nome comercial do metilfenidato. Ela ficou conhecida por ser usada no tratamento farmacológico de TDAH (o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) e como substância de abuso, usada por estudantes em época de vestibular, por exemplo, que desejavam aumentar sua capacidade de concentração e estudo.

Acontece que TDAH é algo controverso. Alguns duvidam até de que seja um transtorno real e afirmam que o diagnóstico é subjetivo demais, e que a situação toda pode tratar-se apenas de pais desejosos de maior docilidade por parte de seus filhos. Bem, independente disso, é fato que ele foi um diagnóstico da moda.

Muita gente gostava de justificar as notas baixas do filhos com o “tal do déficit de atenção”, quando o problema podia estar em outro lugar: falha na metodologia das escolas, mau comportamento, ambiente familiar complicado etc. Afinal, é mais fácil acreditar que uma “pílula mágica”, a Ritalina, vai resolver tudo; ou que o problema está em algo externo, não, por exemplo, na falta de atenção que damos aos nossos filhos.

E, mesmo os médicos, estavam fazendo em demasia o diagnóstico de TDAH. Provavelmente, patologizando um comportamento normal.

Como resultado, o TDAH ficou desacreditado. As famílias que possuem filhos com o transtorno sofrem muito, pois estão batalhando contra uma doença que, segundo a muitos, sequer existe. A Ritalina ganhou má fama: transforma crianças em zumbis. Mentira. Se for usada com a indicação correta, deixa as crianças mais felizes, capazes de se concentrar e com maior auto-estima.

Explicado um pouco sobre a Ritalina no contexto do TDAH, vamos para o universo dos concurseiros e vestibulandos. Aí, já começa mal: a Ritalina é obtida ilegalmente, por meio da internet, de traficantes, de farmacêuticos…

O objetivo dos estudantes que tomam a Ritalina é conseguir passar noites em claro estudando, aumentar a capacidade de concentração e a atenção para, no fim, conseguir aprender mais conteúdo em menos tempo. (Isso me faz pensar na pressão desumana a que submetemos muitos vestibulandos…)

Isso é uma grande merda. A ritalina pode aumentar a quantidade que alguém estuda, mas, em pessoas sem indicação para seu uso, ela não aumentará a qualidade do estudo. E, além disso, pode provocar crises de ansiedade, o que já costuma ser um problema em vestibulandos. Também, diminuir o tempo de sono é uma cilada: ele é essencial para a fixação do conteúdo aprendido durante o dia.

 

Todas essas coisas envolvem a Ritalina de rumores péssimos. Droga de abuso. Substância usada para frear a criatividade das crianças. Transforma as pessoas em zumbis. Receitada em excesso pelos médicos. A falsa pílula da inteligência. Vendida por traficantes. Usada por quem tem TDAH, aquele transtorno que nem existe, de crianças “problemáticas” (pelo amor de deus, essa não é a minha opinião, estou jogando aqui com a opinião pública de quem desconhece completamente esses assuntos).

Essas coisas, infelizmente, causam em mim vergonha de tomar a Ritalina. Eu, muitas vezes, pulava esse comprimido, pela manhã. Simplesmente não conseguia encará-lo. Se alguém me pergunta que remédios eu tomo, não tenho vergonha de falar sobre os antidepressivos, ou sobre os estabilizadores de humor… mas sobre a Ritalina eu tenho. Isso porque, no meu caso, a Ritalina foi prescrita por uma excelente psiquiatra, uma médica em quem confio muito.

Não tenho TDAH. Eu estava apenas me sentindo desanimada, mesmo com os antidepressivos, por isso a Ritalina foi introduzida. Ela não trata depressão, assim como tomar um analgésico para a dor não trata o que está causando a dor… que pode ser um apêndice inflamado, por exemplo (nesse caso, o tratamento seria remover o apêndice – no meu caso, o tratamento para a depressão é tomar os antidepressivos e fazer psicoterapia). Porém, enquanto eu não melhoro 100% da depressão, a Ritalina está me ajudando bastante a conseguir levantar da cama, ir à academia e etc.

Já chega de sentir vergonha de tomar um medicamento que me ajuda, não é? Basta.

 

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Pentax K1000, Kodak Pro Image, Bonito – MS

Quinta-feira, 10 de agosto

Eu estou me comportando. Não estou bebendo, não estou usando drogas, não estou transando com ninguém, não estou me cortando. Parece que eu vou morrer. Não há nenhum lugar para onde canalizar minha energia “destrutiva”.

Talvez eu saia sexta-feira. Quem sabe?

 

De resto, hoje foi um dia bom. Fui à academia. Fui ao inglês. Diverti-me muito. Ajuda passar o tempo com outras pessoas, tira o foco de mim mesma. Ontem, eu estava tão sozinha que até comprei Dramin (se tomar muitos comprimidos, causa uma sensação ruim, que, para mim, é quase o equivalente a se cortar e, se tomar ainda mais, causa alucinações visuais). Felizmente, não foi necessário: acabei tendo uma companhia muito agradável.

Ah! Eu disse para o professor do inglês que estava com dúvida em alguns conteúdos (eu quase surtei no final de semana, porque não conseguia me lembrar de determinadas coisas da gramática) e ele foi muito solícito. Também, perguntou se podia me adicionar no Facebook, para me enviar material de estudo. Fiquei feliz. Ele é muito bonitinho.

 

Por hoje é só, sem grandes novidades.

Beijos,

SS.

 

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Auto-mutilação

Eu respiro tentando encher os pulmões de vida

Mas ainda é difícil deixar qualquer luz entrar

Ainda sinto por dentro toda a dor dessa ferida

Mas o pior é pensar que isso um dia vai cicatrizar

Eu queria manter cada corte em carne viva

A minha dor, em eterna exposição

E sair nos jornais e na televisão

Só pra te enlouquecer

Até você me pedir perdão

 

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É a primeira vez que falo de auto-mutilação aqui. Eu sei que é desagradável, mas faz (fazia?) parte da minha vida. E ignorar as coisas feias não é um bom jeito de lidar com elas.

Eu já ouvi muita merda a respeito dos meus cortes, principalmente que eu os fazia para chamar atenção. Não era isso. Havia muitos motivos para me cortar, mas nenhum deles era chamar atenção.

Depressão é uma doença que não deixa marcas visíveis na sua aparência física, mas que dilacera a sua alma. Cortando a minha pele, eu fazia o exterior combinar com o caos do meu interior: finalmente algo na minha aparência mostraria o meu sofrimento, indicaria que eu precisava de ajuda. Mas a ajuda não vinha. As pessoas desviavam os olhos e seguiam em frente.

Eu era uma estudante de medicina, e, por quase um ano, eu torci para que um dos meus professores médicos visse meus cortes e cuidasse de mim. Eu estava sozinha e sem ajuda adequada. Eu estava tão perdida.

Por vezes, eu me machucava quando sentia muita raiva de mim. Eu estava tão decepcionada comigo mesma, tão aquém das minhas expectativas que precisava me punir.

Outro motivo para me cortar era para aplacar uma dor maior, geralmente amorosa. Quando o sofrimento emocional está grande demais, é preciso fazer alguma coisa, ou eu sinto que vou explodir, esfacelar em milhões de pedacinhos. Nessas horas, eu corto minha pele, a dor física suplanta a da alma e eu me sinto inteira novamente.

Diante de um possível abandono, eu me transformo. A dor é TAMANHA, que eu faço o que for necessário para manter a pessoa por perto, inclusive chantagem emocional. Eu me humilho, eu imploro, eu mostro os cortes nos meu punhos… E não por isso estes cortes eram menos verdadeiros: a dor que me levou a fazê-los era real.

Inclusive, vale salientar: eu não consigo me cortar se eu estiver calma. Eu pressiono a lâmina contra a minha pele e dói demais – sou forçada a parar. Só consigo fazer os cortes se eu realmente estiver em crise, situação em que não sinto a dor da minha pele sendo fatiada. Por isso que não há o menor sentindo em dizer que os meus cortes foram feitos de maneira calculista, para chamar atenção: é dificílimo cortar-se na ausência de uma dor emocional muito grande.

Cortes são chamativos? Sim. São dramáticos? Sim. Pessoas com transtorno de personalidade borderline são mesmo ligeiramente dramáticas, mas nem por isso a auto-mutilação deve ser desvalorizada! Cuidado! A dor psíquica que leva alguém a se machucar é muito grande.

E, o pior, é que cortar a própria pele funciona. Por um momento, vivenciamos um branco emocional. O sofrimento, que era tão grande, é aliviado por milésimos de segundo. E essa sensação de alívio é viciante e dura pouco. Por isso vem o próximo corte. E mais outro. E outro. E logo você não consegue nem contar quantas cicatrizes tem no braço.

Por isso, o meu aviso é: não comece. Parar vai ser uma luta difícil e cheia de sofrimento.

Cortes não são a cura. São apenas um paliativo perigoso, assim como o álcool e as drogas.

 

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Balcões

Meu deus… o que eu fiz? Eu respondi duas TAGs aqui no blog! Prometo que isso não vai se repetir, foi um lapso de julgamento meu, já que essas TAGs obviamente são direcionadas a pessoas sem assunto que querem encher linguiça – o que eu estou tentando não ser.

E ainda teve aqueles dois poemas péssimos! Eu não sei fazer poesia! Eu sequer gosto de poesia! Onde eu estava com a cabeça???

 

Estou triste porque minha amiga C vai viajar para outra cidade por duas semanas. Será um período muito solitário para mim, e isso me faz desejar que existissem balcões no Brasil. Balcões em bares, sabe? Assim, eu poderia ir até o bar, sentar no balcão sozinha, pedir uma bebida e conversar com as pessoas do meu lado. Infelizmente, o Brasil está cagando para os introvertidos, e aqui só existe bar para a galerinha aproveitar. E eu não tenho uma galerinha.

 

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